Como é ser brasileir@ no exterior. Xenofobismo: realidade invisível para muitos
Maria Badet, Porta-voz do Conselho de Cidadania de Barcelona, contou para a nossa redação esse triste episódio de xenofobia que sofreu na Espanha. Um importante relato que serve de alerta a muitos estrangeiros que sofrem diariamente discriminação por não ser nativo e, pela própria condição fragilizada de imigrante, queda-se inerte diante de tal situação. Mas saiba que há um "JEITINHO" BRASILEURO! de resolver essa situação...e foi o que a Maria fez.
Abaixo, o relato de Maria Badet na íntegra:
É muito triste viver na pele o que a intolerância pode gerar quando somos migrantes. Para mim, o fato aconteceu numa terra que também tenho minhas origens nela, pois foi graças aos meus avós terem feito o caminho inverso nos anos 50, chegando ao Brasil, que eu existo e, em 2007, decidi voltar às origens e passei a viver na Catalunha, que para mim é tão querida como meu saudoso Brasil.
Depois de viver a situação que vivi no dia 21 de dezembro de 2011, o meu consolo é saber que meus avós, ao chegarem no Brasil depois de terem sofrido os horrores da Guerra Civil Espanhola, foram bem acolhidos e não tiverem que encontrar no seu caminho uma senhora como a que eu encontrei, depois de quase cinco anos vivendo em Barcelona.
Por outro lado, é motivo de muita revolta saber que situações iguais ou muito piores do que a que eu passei já foram vividas por vários e várias dos mais de três milhões de brasileiros que deixaram o Brasil em busca de uma nova vida.
Exatamente pensando nas milhões de vozes anônimas e nas pessoas que não puderam soprar aos quatros ventos que foram vítimas de xenofobia e/ou racismo pelo fato de serem brasileiras que eu, como membro ativa da comunidade brasileira aqui na Espanha, decidi fazer esse chamado público à sociedade civil organizada, políticos e todos que possam refletir sobre o tema e trabalhar para minimizá-lo.
"Provei na pele mais uma vez que a imagem de nós [mulheres] brasileiras é vista por muitos como sinônimo de sensualidade e erotização."
Infelizmente, aqui não somos as maiores vítimas de preconceito, pois outros coletivos migrantes sofrem muito mais com o tema do que nós. Porém, nenhum tipo de violência e maltrato deve ser minimizado. Pelo contrário, quanto mais lutarmos para visibilizar esse tipo de problema, mas contribuiremos para que esses sentimentos não prevaleçam na nossa sociedade.
O fato que tanto me revoltou, na verdade, começou no dia 5 de outubro de 2011, com a “visita” de uma vizinha que até poucos meses não residia no prédio. Fato é que essa senhora, aos berros e de forma agressiva, bateu à porta da minha casa reclamando do barulho que eu e meu marido supostamente fazíamos na cozinha durante a madrugada, que afirmava ser proveniente do exaustor, que curiosamente quase nunca utilizamos.
Essa senhora fez insinuações verbais sobre nossa profissão, origem e direitos, entre outras coisas. Disse que se no meu país não tinha regra que aqui isso não podia, que era para eu voltar para o meu país que lá sim eu podia fazer o que eu queria, insinuando que eu trabalhava a noite, que era cantora...em resumo, a senhora chegou ao ponto de insinuar com olhar e com palavras que eu era trabalhadora da noite. Mal sabe essa senhora que eu trabalho muitas vezes pela madrugada sim, mas não como ela pensa. Trabalho justamente para entender porque essa e tantas outras pessoas preferem ir pela via mais fácil e construir um imaginário reduzido de quem não conhecem.
Provei na pele mais uma vez que a imagem de nós [mulheres] brasileiras é vista por muitos como sinônimo de sensualidade e erotização. Infelizmente, não esperava tamanha agressão, de forma que não pude documentar o ocorrido a fim de tomar as providências cabíveis perante a polícia e autoridades responsáveis.
"A vizinha foi pega de surpresa, pois não esperava que uma imigrante tivesse a força e coragem para questionar sua atitude."
Infelizmente, não tive que esperar muito para viver de novo essa horrível cena.
No dia 21 de dezembro, com o mesmo tom agressivo, só que desta vez eu estava preparada e gravei toda a conversa para agora tornar pública a situação. Faço um apelo ao espaço público, e não faço por questões pessoais, já que neste sentido tomei as providências cabíveis e denunciei o ocorrido na Comissaria dos Mossos da Esquadra de Barcelona com um pedido de que sejam tomadas todas as medidas possíveis relativas ao crime de xenofobismo previsto em diferentes documentos como: Código Penal - artigo 24.4, e a Normativa Europeia – Diretiva 2000/43. O que espero com este texto é dar voz, vez e espaço para que as vítimas não se calem, para que os governos assumam sua responsabilidade neste tipo de problema e para que a sociedade não ache que isso é normal e aceitável.
Em resumo, no dia 21 de dezembro de 2011, às oito da noite, a mesma vizinha voltou a bater à minha porta, de maneira deseducada, como demonstrado na gravação entregue a polícia.
Da nossa parte, mais uma vez recebemos educadamente a senhora que voltou a gritar e insultar, sendo impossível estabelecer um diálogo. Tentamos explicar-lhe que provavelmente o motivo do incômodo era a calefação, que nos dias mais frios deixamos acesa pela noite, assim como a maioria dos vizinhos. Esta senhora não tinha o direito de nos agredir verbalmente e dizer frases como:
“No estáis en vuestro país”
“No sois de aquí”.
“Eres una guarra y una asquerosa, igual a que tu tío. Es tu tío. ¿Es tu tío?” (Em referência a meu marido, que significa que pensa que ele é meu “cafetão”)
“Eres un cerdo, tío”.
“Ríe, ríe, mala puta. Eres una puta”.
Além destas frases que no contexto são ainda mais graves, também tentamos diálogos frustrados, nos quais a senhora demostrou aversão a pessoas naturais de outros países:
Señora: “En tu país no sabéis lo que es dormir”.
Eu: “Aqui también es mi país”.
Señora: “¿Qué país tenéis?”
Eu: “Aquí es mi país”.
Señora: “El tuyo no es este”.
A gravidade dessas palavras e frases reside no fato de que essa senhora pensa que uma pessoa, por ser migrante, não tem direitos, assim como deixou claro que tem uma imagem minha associada a prostituição, que é uma profissão que deveria ser respeitada e vista dentro do seu correto contexto. Acredito que essa associação direta e reduzida não é gratuita e sim resultado de todo um imaginário estereotipado da mulher brasileira como eu e vários colegas que pesquisam imigração brasileira já demonstramos em pesquisas acadêmicas, além de ser um discurso que manifesta um claro sentimento xenófobo.
Felizmente sou uma pessoa informada e tenho acesso aos mecanismos necessários para não ser desrespeitada, independente da minha origem, profissão, credo ou o que seja.
A minha indignação se deve a que fatos como o ocorrido demostram que ainda devemos percorrer um longo caminho para conscientizar a sociedade. O trabalho que eu e milhares de brasileiros e brasileiras, assim como coletivos de outras origens temos feito para combater este tipo de sentimento ainda não tem o alcance necessário. Prova disso, é saber que próximo a minha casa dorme alguém que alimenta um imaginário do meu país marcado por reducionismos e preconceitos.
Depois de ter vivido o caso e gravado a segunda "visita" da vizinha, orientada por um advogado junto ao qual colaborava para tentar ajudar mulheres brasileiras vítimas de exploração e/ou tráfico, ele me acompanhou para entrar com um pedido junto a vara correspondente na cidade da justiça. A vizinha foi pega de surpresa, pois não esperava que uma imigrante tivesse a força e coragem para questionar sua atitude.
No dia do julgamento, ao colocar o áudio da agressão, a senhora até tentou argumentar, mas o juiz disse de maneira contundente que ela não podia bater à minha porta e me agredir verbalmente.
Em resumo, ele condenou a mesma a pagar 600 euros, parte do dinheiro para o juzgado e outra para pagar os honorários do advogado que contratei.
Com certeza, ela vai pensar duas vezes agora antes de fazer algo do tipo. Temos que ser mais proativos!
Lutar pelos nossos direitos.
Vídeo: Diálogos sobre Política Externa: Maria Badet Souza (Ministério das Relações Exteriores - Brasil)
Jornalista e Doutora em Comunicação Audiovisual e Publicidade pela Universitat Autònoma de Barcelona - UAB . Residente em Barcelona desde 2007, onde se especializou em estudos sobre imigração brasileira , mídia e gênero com várias publicações sobre o assunto. Atualmente é pesquisadora do Centro de Estudos Olímpicos no UAB sobre "Os impactos na imagem do Brasil com a realização da Copa do Mundo 2014 e Olimpíadas de 2016 ", além de colaborar em outros projetos universitários sobre imigração brasileira na Europa. No campo associativo , coordenou e presidiu diferentes associações brasileiras na Espanha/ Europa e atualmente é o Coordenadora de Comunicação do Conselho de Cidadania da Jurisdição do Consulado do Brasil em Barcelona.

































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